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segunda-feira, 10 de março de 2014

HISTÓRIA DAS RADIAÇÕES = RESSONÂNCIA NUCLEAR MAGNÉTICA

RESSONÂNCIA NUCLEAR MAGNÉTICA
Prof. Dr. João Eduardo Irion
Faculdade de Medicina
Universidade Federal de Santa Maria – RS – BR
Médico Nuclear
Serviço de Medicina Nuclear de Santa Maria
jirion @terra.com.br
joaoeduirion.blogspot.com.br

A RESSONÂNCIA NUCLEAR MAGNÉTICA

Em 1.924, Wolfgang Pauli, com base na experiência de Stern-Gerlach (1920), comparou os núcleos atômicos a pequenos imãs com momentos nucleares.
                                                 Isador Rabi

A ressonância nuclear magnética foi descoberta em 1939 por Isidor Isaac Rabi, Professor da Columbia University, ao submeter um feixe molecular de hidrogênio H2 em alto vácuo a campo magnético oscilante, verificando que os dipolos nucleares que estavam dispostos em todas as direções se alinhavam seguindo a polarização do campo magnético. Quando, além do campo magnético, o hidrogênio era submetido a ondas de rádio, (na frequência VHF), os núcleos absorviam energia proporcional à intensidade do campo magnético, entrando em ressonância. Ao ser suspenso o campo magnético, os núcleos voltavam ao estado normal (fato chamado relaxamento), devolvendo energia sob a forma de ondas de rádio, numa frequência própria de cada tipo de átomo (chamada frequência de Larmor).
                                             Edward Mills Purcell

Nos anos de 1945 e 1946, trabalhando isoladamente, Felix Bloch e seus colaboradores na Universidade de Stanford e Edward Mills Purcell e colaboradores na Universidade de Harvard, ao procurar aprimorar as técnicas de medida de momentos magnéticos nucleares, observaram sinais de absorção de radiofrequência dos núcleos de H na água e na parafina, re-emitindo essa energia quando voltavam ao estado original em radiofrequência proporcional ao campo magnético (frequência de Larmor).
                                                  Felix Bloch
Bloch e Purcell foram agraciados com o prêmio Nobel de Física em 1952 “pelo desenvolvimento de novos caminhos e métodos para medidas de precisão da ressonância nuclear magnética”. Essa e outras experiências são os fundamentos da espectroscopia com ressonância nuclear magnética que se tornou uma eficiente ferramenta de análise química. Os primeiros espectrômetros de RNM com grande resolução e sensibilidade apareceram n o mercado em 1953.
No ano de 1986 foi desenvolvido o microscópio de RNM com resolução de 10 mm numa amostra de um cm. A espectroscopia com a ressonância nuclear magnética é um método não invasivo e não destrutivo usado para estudar a estrutura química das substâncias, inclusive substâncias orgânicas como, por exemplo, os componentes em produtos alimentares, fluidos biológicos e metabólicos em tecidos e órgãos de seres vivos intactos.
Até a década de 70, a ressonância magnética era usada somente na espectroscopia, como técnica importante para a investigação molecular, principalmente, no campo da análise qualitativa e quantitativa, permitindo obter informação estrutural e dinâmica para qualquer estado da matéria.
                                                           Raymond Damadian
Em 1.971, Raymond Damadian, médico e Professor da Universidade Estadual de Nova York, publicou um artigo na revista Science, relatando que os tecidos cancerosos de cobaias sacrificadas, tinham um tempo de relaxamento na ressonância nuclear magnética diferente dos tecidos normais e que esse fato podia ser usado no diagnóstico de câncer in vivo. A descoberta motivou Damadian e seus colaboradores a construir uma máquina de ressonância magnética para diagnóstico do câncer in vivo mediante o mapeamento do corpo ponto por ponto (técnica do campo focado).
O conceito de mapeamento de corpo inteiro com ressonância nuclear magnética foi patenteado por Damadian. A máquina foi concluída em 1977, depois de sete anos de trabalho e por isso Damadian deu-lhe o nome de “Indomável” pelas dificuldades de sua construção. A máquina está hoje no Smithsonian Institutton.
A primeira RNM realizada em um ser humano foi feita com a Indomável em 3 de junho de 1977. A máquina forneceu, sem interferências, depois de cerca de cinco horas de exposição, a imagem clara do coração pulmão e paredes torácicas do paciente. Como Damadian era grande e não cabia na máquina, seu assistente Larry Minkoff, que era o suficiente magro serviu como cobaia para a realização da primeira imagem torácica.
                                    Imagem deRNM do tórax de Minkoff

RNM do tórax de Minkoff' ao nível de D VII-DVIII REALIZADA ÁS 4.45 da manhã de julho de, 1977
Em 1978, Damadian formou a companhia FONAR e produziu a primeira máquina comercial de ressonância em 1.980.
A tecnologia de campo focado se mostrou menos eficiente que os métodos desenvolvidos por Lauterbur e Mansfield descritos a seguir e por isso, a FONAR os adotou.
                                                                            
                                                            Paulo c. Lauterbur
Tendo conhecido as experiências de Damadian Paul C. Lauterbur, Professor de Química da Universidade Estadual de Nova Iorque, iniciou estudos de RNM por outro caminho, no caso o campo magnético não uniforme – um gradiente tridimensional, isso é a técnica ecoplana usada hoje. Ele considerou ser possível obter imagens com radiação eletromagnética a partir de vários pontos ao redor do mesmo plano de uma amostra estimulada radiomagneticamente.
Para testar sua ideia, colocou água normal (H2 O) num capilar de vidro de 1 mm de diâmetro e encheu outro capilar idêntico com água pesada (D2 O). Os dois capilares foram mergulhados em um recipiente com 5 mm de diâmetro cheio de água comum. Um artigo inicial sobre RNM foi recusado, mas, em 1973, Lauterbur publicou a imagem de um molusco e a imagem da cavidade torácica de um rato. Lauterbur deu às imagens o nome de zeugmatografia (do prefixo grego que significa conjugação). Seu trabalho sobre a experiência foi publicado pela revista Nature em 16 de março de 1973 com o título “Imagen formation by induced focal interaction, examples empolyng magnetic resonance. A réplica da máquina original de Lauterbur está no edifício de Química da Universidade Estadual de Nova York.
                                                                         
                                                                                                       
                                                     Peter Mansfield
O físico inglês Peter Mansfield conheceu as pesquisas de Damadian quando trabalhou nos Estados Unidos. Ao voltar para a Nottinghan University, na Inglaterra, assim como fez Lauterbur, teve a ideia de usar gradientes no campo magnético para obter imagens e demonstrou que as informações fornecidas pela RNM poderiam ser processadas matematicamente com auxílio de computação. Em 1976, antes de Damadian ele obteve a primeira imagem de RNM do dedo de uma pessoa.
Paul C. Lauterbur e Petter Mansfield receberam o Prêmio Nobel de Medicina e Fisilogia de 2003. Raymond Damadian “por suas descobertas relacionadas com a imagem na Ressonância Nuclear Magnética” recebeu diversos prêmios em 2001, o Lemelson-MIT Prize. The Franklin Institute de Philadélfia deu-lhe o Bower Award. Ele foi escolhido homem do ano em 2003 pelos Knights of Vartan. Recebeu a Medalha de Tecnologia em 1988. Em 1989 foi incluído no National Inventors Hall of Fame in 1989, mas não recebeu o prêmio Nobel e então Damadian (acompanhado por muitos cientistas e jornalistas) publicou seu inconformismo mediante matéria paga publicada em página inteira no New York Times, no The Washington Post e no The Los Angeles Time.
Em 1975, Richad Ernst propôs a produção de imagens com ressonância nuclear magnética utilizando fase e frequência codificadas pela transformada de Fourier, criando a base da técnica de RNM atual. Em 1977, Eldestein e colaboradores demonstraram a imagem adquirida em 5 minutos do corpo inteiro usando a técnica de Ernst. Em 1986, o tempo de imagem foi reduzido para cinco segundos.
Em 1987, a técnica ecoplana foi usada para obter imagens em tempo real do movimento cardíaco e Charles Dumoulin realizou a primeira angiografia com ressonância magnética que permite imagens do fluxo sanguíneo sem contraste. Em 1991, Richard Ernst recebeu o prêmio Nobel de Química pelo uso da transformada de Fourier em RNM.
O Professor escocês John Mallard e sua equipe construiu o primeiro aparelho para RNM de corpo inteiro, usando essa máquina na University de Aberdeen. No dia 28 agosto de 1980, ele usou a máquina no primeiro uso clínico em um paciente para diagnosticar um tumor primário no tórax com metástases no esqueleto. O equipamento foi mantido no St Bartholomew’s Hospital, em Londres entre 1983 até 1993. Mallard e sua equipe contribuíram para o avanço tecnológico da RNM e sua difusão como instrumento clínico.
Em 1993, começou a ser criada a ressonância magnética funcional. Em 1994, pesquisadores da State University of New York e da Princeton University demonstraram a imagem da respiração com 129 Xe hiperpolarizado. Já em 1.980 existia o conceito de hemodinâmica cerebral estando a atividade cerebral relacionada com o fluxo sanguíneo e a oxigenação do cérebro, mas não havia técnica não-invasiva para demonstrá-lo.
Em 1986, Marcus E. Reichie e Peter T. Fox, usando a Medicina Nuclear, mostraram a hemodinâmica cerebral por um meio não-invasivo com a tomografia por emissão de pósitrons (PET). Eles demonstraram a relação direta entre ativação neuronal e aumento do fluxo cerebral e do metabolismo em cérebros humanos.
Em 1990 Seiji Ogawa (laboratório Bell) e John W. Belliveau (Massachussetts General Hospital), estudando cobaias, demonstraram que o nível de oxigenação do sangue funciona como contraste que pode ser usado na imagem de RNM porque a hemoglobina tem propriedades magnéticas diferentes se está oxigenada ou não. A hemoglobina pode fornecer imagens do fluxo sanguíneo cerebral porque o conteúdo de deoxihemoglobina é inversamente proporcional ao fluxo (o fluxo aumenta para compensar a redução do oxigênio transportado pelo sangue). Ogawa obteve imagens do fluxo cerebral após administração de anestésico, da hipoglicemia induzida por insulina e por inalações de gases. Com isso surgiu o conceito de BOLD (Blood Oxigenation Level Dependent). Em 1992, Ogawa e Belliveau provaram que a ressonância magnética funcional é capaz de demonstrar a localização precisa do córtex visual em seis pacientes com estímulo visual uni e bilateral ou a realizar tarefas motoras.
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A HISTÓRIA DO DIAFRAGMA POTTER-BUCKY

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A HISTÓRIA DA TOMOGRAFIA CONVENCIONAL – A HISTÓRIA DA TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA

MEDICINA NUCLEAR – PRIMEIRA PARTE = INTRODUÇÃO = CLASSIFICAÇÕES DOS ELEMENTOS= CLASSIFICAÇÕES DOS NUCLÍDEOS

A HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR – A DESCOBERTA DA RADIOATIVIDADE = BECQUEREL = MARIE E PIERRE CURIE 

A HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR– A NATUREZA DAS RADIAÇÕES α, β e γ

A HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR– O CONCEITO DE RADIOTRAÇADOR

A HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR - OS  DETECTORES NA FASE  DE 1896 A 1936

A HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR– HEVESY E O CONCEITO DE RADIOTRAÇADOR = A EXPERIÊNCIA DE BLUMGART = A TERAPIA COM RADIOISÓTOPOS NATURAIS

A HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR- A TERAPIA COM ISÓTOPOS ARTIFICIAIS- A MEDICINA ATÔMICA E A MEDICINA NUCLEAR – OS ISÓTOPOS DO IODO- OS DETECTORES ELETRÔNICOS DE CINTILAÇÃO.

A TERCEIRA FASE DA HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR – O CINTILÓGRAFO LINEAR – A CÂMERA DE CINTILAÇÃO – A SPECT

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HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR – POSITRON EMISSON TOMOGRAPHY – PET – AS IMAGENS HÍBRIDAS


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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

HISTÓRIA DA MEDICINA NUCLEAR – POSITRON EMISSON TOMOGRAPHY – PET – AS IMAGENS HÍBRIDAS

Prof. Dr. João Eduardo Irion
Faculdade de Medicina
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Médico Nuclear
Serviço de Medicina Nuclear de Santa Maria
jirion @terra.com.br
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A HISTÓRIA DO PÓSITRON

Em 1928, Paul Dirac previu a existência de uma partícula com massa igual a do elétron, mas com carga positiva. Em 1932, pretendendo estudar raios cósmicos, Carl Anderson no California Institute of Tecnology em Pasadena construiu uma grande câmera de nuvens e a colocou dentro de um magneto. Na metade dessa câmera ele colocou uma lâmina de chumbo de seis milímetros de espessura para atenuar a velocidade das partículas e estudar a mudança da trajetória acima, antes e depois da passagem pela lâmina. Depois de obter mais de 1.000 fotografias, ele encontrou em 15 delas, passando pela lâmina, partículas com carga positiva. Anderson mediu a massa das partículas e verificou que eram mais leves do que os prótons. Constatou também que elas tinham carga unitária positiva e as denominou pósistrons.
Em 1933, Patrick Blackett e Giuseppe Occhialini confirmaram previsão de Dirac e o achado do pósitron por Anderson. Eles foram além e colocaram a câmera de nuvens entre dois contadores Geiger-Muller e constataram que alguns raios passavam simultaneamente pelos dois detectores. Eles fizeram cerca de 700 fotografias e identificaram 14 trajetórias de partículas de alta energia cujo deslocamento indicava ter carga positiva, pensando, então, que o pósitron era o resultado da colisão de duas ondas de muito alta energia, fato, mais tarde, conhecido como anulação dos pares de elétrons e pósitrons ou partículas β+.

APLICAÇÕES MÉDICAS DA ANIQUILAÇÃO PÓSITRON-ELÉTRON

O acrômio PET oriundo das iniciais da expressão em inglês “Positron Emission Tomography” foi criado por Michael Phelps.
O primeiro uso de nuclídeos emissores de pósitron foi relatado por Gordon L. Brownell William H. Sweet at Massachusetts General Hospital (MGH) em 1951. Nesse mesmo ano, F. R.Wrenn Jr., M.L. Good e P. Handler descreveram e publicaram na revista Science um trabalho em que usaram a anulação de pósitron para localizar tumores cerebrais. Essas duas publicações independentes representam as primeiras tentativas de registrar os dados fornecidos pelos pósitrons em procedimentos médicos.
O protótipo projetado e construído por Brownell usava dois detectores de iodeto de sódio em oposição para registrar a coincidência da radiação originada da anulação pósitron/elétron. Em 1952, já na segunda versão do equipamento, eles obtiveram a primeira imagem bidimensional de um tumor cerebral. Entre 1952 e 1962, o aparelho foi aperfeiçoado com o uso de detectores múltiplos. Em 1971, eles construíram a versão denominada PC-I e depois o PC- II, aptos para obter imagem planas paralelas e imagens tomográficas transversais. Esses detectores usaram a técnica de retroprojeção criada em 1970, por Chesler, também da equipo do MGH. Em 1978, The Cyclotron Corporation (TCC) fabricou e vendeu alguns tomógrafos baseados no projeto de Brownell. Eram aparelhos que usavam duas cabeças em oposição com grandes detectores de NaI(Tl) e que rodavam ao redor do objeto. A seguir a TCC substituiu o NAi(Tl) pelo cristal BGO (germanatado de bismuto) e fabricou apenas um aparelho com essa tecnologia.
Em 1959, Anger, usando o princípio da detecção por coincidência criou uma câmera de pósitrons.
Até meados da década de 70, o desenvolvimento do PET manteve-se estacionário, prejudicado pela falta de técnica de reconstrução da imagem e, ainda, pela capacidade limitada de computadores de então, mas isso começou a mudar depois da criação do SPECT e da tomografia computadorizada com raio-X e com o desenvolvimento das técnicas de reconstrução por retroprojeção e o desenvolvimento da informática.
Nos primeiro tomógrafos PET, o conjunto de detectores realizava movimentos de rotação e de translação em torno do objeto alvo. A disposição dos detectores em hexágonos ou cilindros eliminou e necessidade desse movimento. Isso começou em 1973, quando James Robertson do Brookhaven National Laboratory criou o primeiro tomógrafo com 32 detectores formando um anel, embora não obtivesse boas imagens.
Em 1973, Michael E. Phelps construiu o primeiro tomógrafo PET conhecido como PETT I, na Washington University, sem obter sucesso na produção de cortes transversais. Nesse ano, Mike Phelps Michel M. Ter-Pogossian e Edward Hoffman da Washington University iniciaram com a EG&G ORTEC uma companhia spin-off do Oak Ridge National Laboratory, o projeto do PETT II, com 24 detectores de NaI(Tl) dispostos em hexágono, realizando a reconstrução da imagem com um algorítimo mais avançado.
Phelps batizou o tomógrafo com o nome de “Positron Emission Transaxial Tomography” (de acrômio PETT), que mais tarde simplificou para PET porque o aparelho fazia outros cortes, além dos cortes transaxiais. O PETT II foi concluído em dezembro de 1973, e as primeiras imagens foram feitas em janeiro de 1974. Um mês  depois foi construído o modelo PETT II ½ e ambos os tomógrafos foram usados para a obtenção de imagens em animais. Mike Phelps e Ed Hoffman concluíram, a seguir, o PET III formado por 48 detectores de NaI(Tl) com diâmetro de 50mm em disposição hexagonal com um computador controlando o movimento dos detectores, do gantry e da mesa e também para reconstruir as imagens. O PET III foi usado em humanos para medir fluxo sanguíneo, o metabolismo com oxigênios, da glicose e da tomografia óssea com F-18. Ele serviu de base para a EG&G ORTEC fabricar o primeiro tomógrafo comercial com o nome ECAT II um acrômio significando Emission Computed Axial Tomograph, dotado de 96 cristais de NaI(Tl) de 3.75 cm e do computador PDP-11 com 32 Kb de memória.

OS CRISTAIS USADOS NO PET

O único cristal detector disponível nos anos 1970 era o NaI(Tl) cuja desvantagens eram a dificuldade de fabricação pela natureza higroscópica do sal e limitação de sua eficiência na captação da radiação de alta energias de 511 KeV dos raios γ. A virtude do cristal era o alto rendimento luminoso e o rápido tempo de decaimento da cintilação de coincidência. O cristal conhecido como germanato de bismuto (Bismuth-Germanato ou BGO) é mais denso porque tem um número atômico alto. Nester e Huang determinaram as propriedades de cintilação do BGO em 1975, concluindo que ele era um cristal excelente para uso no PET. Cho e Derenzo criaram o primeiro tomógrafo que usou BGO.
Outro cristal usado nos tomógrafos é o oxiortosalicitalo de lutécio - LSO que foi descoberto entre 1989 e 1992 e patenteado por Charles Melcher da Schlumberger Technology Corporation.
A comparação entre os três cristais mostra que o BGO é mais denso que o NaI(Tl), mas tem somente quinze por cento da luz produzida pelo NaI(Tl) e tem decaimento relativamente lento com tempo de 300 nanosegundos contra 230 nanosegundos do NaI(Tl). Já o LSO tem densidade um pouco maior que a do BGO e produz cinco vezes mais luz, com um tempo de decaimento 7.5 vezes mais rápido (40 nanosegundos) que do que BGO. A combinação dessas qualidades torna esse cristal ideal para o PET, mas o uso é limitado por seu alto custo.
O primeiro tomógrafo PET com LSO, o microPET, foi projetado e fabricado por  Simon Cherry da UCLA, para pesquisa em pequenos animais.
Em fevereiro de 1999, o Max Planck Institute, Köln, na Alemanha recebeu o primeiro tomógrafo cerebral HRRT para uso humano com aproximadamente 120.000 pequenos cristais de LSO.

OS BLOCOS DE DETECTORES.

No início do PET, cada cristal estava acoplado a uma válvula fotomultiplicadora. Em 1984, a Scanditronix projetou um tomógrafo na qual havia dois cristais para uma só fotomultiplicadora, um era cristal BGO e o segundo era cristal de ortosilicato de Gadolineo (GSO). Essa técnica deu início  ao uso de mais de um cristal acoplado com um só tubo fotomultiplicador conhecida como detectores em bloco, tornando possível a fabricação de tomógrafos PET de alta resolução com custo mais reduzido.

A SÍNTESE DO FDG

As primeiras imagens no PET III foram obtidas na Washington University usando glicose marcada com C-11, água marcada com O-15 e amônia marcada com N-13 para o fluxo sanguíneo e marcada com O-15 para o metabolismo do oxigênio.
Depois de usarem a 14 C-desoxyglicose para autorradiografias afim de determinar o consumo da glicose em cérebro de rato, Lou Sokoloff (ilustr. nº 43)e Mark Reivich usaram a glicose marcada com F-18 no PET.

                                                         Ilustração 1 – Lou Sokoloff
Em 1978, Joanna Fowler do grupo Brookhaven sintetizou a 2-fluoro-deoxi-D-glicose (2-FDG) marcada com F-18. A primeira imagem com FDG foi feita na University of Pennsylvania no Mark IV, um  tomógrafo SPECT. A grande virtude da 2-FDG foi estimular o uso do PET em estudos funcionais do cérebro. Os primeiros testes em seres humanos foram feitos em agosto de 1976 por Abass Alavi na University of Pennsylvania, quando injetou o radiofármaco em dois voluntários para obter imagens cerebrais num sistema SPECT e para demonstrar a concentração cerebral da FDG. Mais tarde en 1979, já com o tomógrafo PET ECAT II Sokoloff e Reivich, Phelps e Kuhl usaram a 2-FDG para obter imagens tomográficas em seres humanos, passando esse a ser o principal método de imagens funcionais do sistema nervoso nos anos seguintes. Em 1981, Phelps publicou um artigo na revista Science, mostrando a ativação diferencial de várias partes do cérebro em tarefas como ler, falar, e outras que causou grande impacto e deu início ao uso do PET em neurociências
Em 1986, K. Hamacher K. H.H. Coenen H.H e Stocklin G. da Jülich na Alemanha criaram o método atualmente usado de síntese da FDG, usando uma reação nucleofílica.

O CONJUNTO PET, CÍCLOTRON E A QUÍMICA AUTOMATIZADA PARA USO MÉDICO

No início de 1984, George Hendry da The Cyclotron Corporation (TCC) projetou  um modelo de minicíclotron de 11 MeV, com o acrônio RDS112 (Radioisotope Delivery System). O RDS era blindado para neutros e radiação γ e podia fazer, gaz marcado com 11C, água com 15 O e gás com 13 N H3. O primeiro RDS foi enviado para Jerry Nickles na University of Wisconsin em 1986.
Em 1985, Satyamurthy, Barrio and Padgett da UCLA criaram o sistema eletrônico controlado por computador para fazer a síntese de FDG e dos traçadores moleculares e para usar a tecnologia da radiofarmácia, suprindo as necessidades dos serviços clínicos. A partir daí várias companhias passaram a fornecer cíclotrons e a tecnologia da automatização da produção de radiotraçadores moleculares.


A geração mais recente de tomógrafos usa tecnologia que produz imagens com baixo ruído e alta resolução nos aparelhos e são chamados TOF-PET. Esses equipamentos têm capacidade para avaliar o fenômeno chamado “time-of-flight” (TOF) que consiste em medir o tempo de percurso de cada fóton, resultante da anulação do par pósitron-elétron e localizar sua origem ao longo da linha de resposta (em inglês Line of Respost – LOR), sigla usada para designar a trajetória dos dois fótons resultantes da anulação.
Quando um radioisótopo decai por emissão de um pósitron, ele se anula com um elétron vizinho, dando origem a um par de fótons (com energia de 511-keV) que são emitidos simultaneamente em direções opostas, próximas de 180°, ambos descrevendo a trajetória linear chamada de linha de resposta. Esses equipamentos usam detectores muito rápidos e sistemas de processamentos eletrônicos capazes de mediar a diferença de tempo entre a chegada de cada fóton em cada detector.
Quando os dois fótons são detectados no tomógrafo PET, o evento é chamado de coincidência, fornecendo o sinal necessário para formar a imagem. Quando a anulação ocorre no meio da linha de resposta, ambos os fótons chegam aos detectores ao mesmo tempo, mas se a anulação não aconteceu no meio da LOR o fóton que percorre a trajetória menor chega mais cedo ao detector.
No tomógrafo TOF-PET, a diferença de tempo ΔT entre a detecção de cada fóton é medida por detectores rápidos e por meios eletrônicos e a informação é usada para localizar o ponto da LOR onde a anulação ocorreu e assim é utilizada na formação da imagem. Os primeiros tomógrafos TOF-PET foram criados no início de 1980 na Washington University e na University of Texas. Neles foram usados cristais de fluoreto de césio ou de fluoreto de bário, mas o baixíssimo tempo de resolução (menor que nanosegundos) necessário para melhorar a qualidade da imagem só tornou-se realidade recentemente com a construção de tomógrafos TOF para uso clínico, graças aos avanços tanto na alta sensibilidade dos detectores como na eletrônica.
A Philips Medical System produziu o tomógrafo TOF-PET/CT, denominado GEMINI TF, testou o equipamento em novembro de 2005 na University of Pennsylvania e o lançou no comércio em junho de 2006.

AS IMAGENS HÍBRIDAS.

A medicina Nuclear começou como uma especialidade de não-imagem e evoluiu para o uso de imagens com a invenção do cintilógrafo linear. As cintilografias obtidas nos cintilógrafos lineares tinham tamanho real e isso permitia sua superposição com as radiografias. Esse procedimento existiu nos primórdios da especialidade e deu origem ao conceito de imagem hibrida ou de imagem anatomometabólica.
A correlação entre cintilografias e radiografias desapareceu com as imagens adquiridas na câmera de Anger que são miniaturas criadas por computador.
O advento da tomografia computadorizada e do SPECT nos anos 80 renovou o interesse pelas imagens híbridas porque ambas são geradas por técnicas digitais e podem ser manipuladas, incluindo rotação, translação e reescalonamento. As imagens híbridas começaram a ser mais usadas em processos neurológicos, mas também são úteis nos casos em que a distribuição dos radiotraçadores nas cintilografias não fornece boas informações anatômicas. Hoje as imagens híbridas têm aplicações no planejamento da conduta neurológica, na conduta oncológica e no planejamento da radioterapia.
O conceito de registro e fusão de imagens levou ao desenvolvimento dos scanners híbridos. A GE Medical Systems foi a primeira a vender uma câmera SPECT dotada de uma ampola de raios-X capaz de fornecer imagens de CT com baixas doses de raios-X. Esse aparelho recebeu o nome de “Hawkeye” (olho de lince) e foi imediatamente usado em oncologia.
A integração SPECT-CT precedeu a a integração PET-CT. O desenvolvimento do primeiro sistema combinado PET-CT para diagnóstico foi desenvolvido por D. W. Townsend, T. Beyer  e T. Brun no ano 2000 e revolucionou a imagem hibrida. As primeiras versões desses equipamentos incluíam tomógrafos PET com anéis ainda parciais, mas logo foram usados tomógrafos PET com múltiplos detectores disposotos em anéis e depois em cilindros. O primeiro equipamento comercial PET-CT foi fabricado no ano 2001 com o nome de LS Disicovery da GE Medical Systems.
O desenvolvimento seguinte foi a integração no PET-CT do hardware e da plataforma do sofware. A partir de 2006 a 2008 os avanços das imagens híbrida incluem a integração TOF-PET-CT.
A integração PET-MRI num único scanner representa o ápice da combinação, isto é, a imagem molecular metabólica do PET integrada com a informação anatômica da MRI. O desenvolvimento dessa integração para uso clínico exigiu a solução de problemas técnicos, o principal deles é o fato de que os tubos fotomultiplicadores do PET são afetados pelo campo magnético do MRI que provoca o desvio do curso dos elétrons nas válvulas. Obstáculos como esse levaram as pesquisas sobre PET-MRI para aparelhos apenas para estudos em pequenos animais, mas a Siemens mostrou um trabalho sobre o primeiro sistema integrado PET-MRI para uso humano no The Radiological Society of North America Meeting em 2006 contendo as primeiras imagens adquiridas com um protótipo PET-MRI. Esse aparelho foi construído com cristais de oxalato de lutécio (lutetium-oxalate - LSO) acoplados a novos fotocatódios de avalanche, usados no lugar das válvulas fotomultiplicadoras.

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O MUSTANG E A BALA ASSASSINA

UMA HISTÓRIA VERÍDICA – ACREDITE! NÃO PRECISO JURAR!

João Eduardo Irion
Da Academia Santa-mariense de Letra
Crônica Publicada no Livro em “Prosa e Verso III”
2011

Aí está a Márcia que não me deixa mentir. Ela viajava comigo e participou da aventura da qual o herói foi o Mustang. Explico. Eu tinha, na época o Ford Mustang 1.999. Era um carro e tanto, top de linha, com um motor 5.0 V-8 de 280 HP e cinco marchas, câmbio manual e piloto automático. O motor fazia um ronco especial, agradável ao motorista, indicando potência, prometendo subir em coqueiros. Visto de frente o Mustang encarava o observador como um ser fogoso com os dois faróis como se fossem olhos fixos no observador, e os dois respiros do capô imitando duas narinas abertas para respirar o máximo de ar. Visto de lado, o carro, mesmo parado, parecia estar em plena corrida, tal o seu desenho aerodinâmico. Todos sabem que o Mustang é uma raça de cavalos selvagens da América do Norte e o meu Mustang merecia o nome porque não era um matungo. Era prateado o meu tordilho.
                                               
                                           O Mustang placa CCL 5666

Pois naquela noite chegamos ao aeroporto de Porto Alegre no vôo que aterrisou coisa de oito horas e dali fomos para o nosso apartamento, no edifício da Avenida Independência, onde o Mustang, como sempre, nos esperava para nos levar a Santa Maria. Era assim a rotina quando eu ainda trabalhava em São Paulo e periodicamente vinha para o sul junto com a minha esposa. Nessa noite resolvemos, antes de partir, ver a novela e por isso saímos de Porto Alegre lá pelas onze da noite.
Viajamos pela BR 290 e cerca de uma hora da manhã, paramos no restaurante Papagaio, que fica junto ao trevo da encruzilhada de 290 com a estrada que vai para Cachoeira do Sul. A intenção era tomar um café e comer alguma coisa. Entramos no restaurante, os dois, com cara de cansados, e eu, pior ainda, arrastava os pés com uma crise de gota. Usávamos ainda as roupas da vigem de São Paulo. Eu me vestia como um executivo, com terno e gravata e a Márcia, como sempre elegante, usava tailleur com saia preta e casaco de veludo com listinhas pretas (ela ainda se lembra). Parecíamos um casal de velhos bem de vida, com um carro importado novinho, viajando imprudentemente solitários na calada da noite, numa estrada famosa pelos assaltos aos turistas argentinos. Prometíamos ser uma presa fácil e muito provavelmente cheia de dinheiro, além do carro modelo pouco comum, com qualidades e beleza, formando um conjunto para gerar cobiça e atiçar assaltantes.
O restaurante não estava totalmente deserto porque dois tipos ocupavam uma mesa. Eu não lhes prestei atenção, mas a Márcia logo implicou porque fazia frio e eles não paravam de entrar e sair do salão, ora um, ora outro, deixando a porta aberta por onde entrava a friagem do minuano. Só depois do acontecido entendemos que eles estavam nos observando, viram nossas bagagens, porque eu abrira o porta-malas para pegar alguma coisa que a Márcia me pediu. As entradas e saídas preparavam o assalto.
Saímos do restaurante e, no trevo, dobamos em direção à Cachoeira. Nessa viagem, escolhi essa alternativa para ir a Santa Maria, devido às boas condições da estrada e porque é o caminho mais curto. Naquela hora da madrugada, as estradas estavam desertas. Logo um carro nos alcançou e ficou com luz alta atrás do Mustang. Nunca imaginamos que eram assaltantes num automóvel. Nesse momento, estávamos a uns 80 por hora e a luz que refletia nos retrovisores me incomodava. Então eu disse para minha mulher:
 - Vou deixar esses chatos passarem, porque a luz dos faróis me atrapalha.
Dito isso reduzi a velocidade pra uns 60 por hora. Então o outro carro emparelhou com o nosso e passou a acompanhar o Mustang. Por alguns instantes, os dois automóveis correram lado a lado. Ainda lembro que era um carro branco do tipo Passat, mas não vi direito nem a marca nem o modelo.
De repente a Márcia, alarmada me disse:
-Irion, não olha, eles estão apontando uma arma para nós.
Até hoje minha mulher descreve o brilho metálico do revolver como e para ela, pareceu ter um imenso cano ameaçador.
Sem mover a cabeça, pelo canto dos olhos, vi na janela aberta do banco do carona, com a cara mais deslavada, sorrindo como se já estivesse vitorioso, o assaltante apontando um 38 na nossa direção. Como sabia que era um 38? Realmente não sabia, mas, na minha imaginação, essa era a arma típica dos assaltantes.
Os bandidos nos subestimaram. Eles viram no restaurante um velhote manco, arrastando os pés que certamente não mereceria e nem saberia dirigir bem um carrão daqueles.
-Afinal, carro esportivo é coisa de guri e não de velhos!
Para nossa sorte, os safados cometeram o erro de não nos fechar e assim nos obrigar a parar. Acharam mais divertido nos assustar, “nos gozar” como se diz na gíria. Assim se mantivera por segundos lado a lado com o Mustang, com a arma ameaçadora apontada para nós. Não sabiam que o velhote tinha muita estrada (calculo que já dirigi o equivalente a mais de 10 voltas à terra), percorrendo todo tipo de estrada, desde picadas, tirando muito peludo em estrada de barro, ou enfrentando congestionamentos em São Paulo ou a aventura das autoestradas dos Estados Unidos. Não sabiam que eu estava treinado para dar umas “corridinhas” com o Mustang. Não sabiam que, embora a placa do carro fosse de São Paulo, eu, como gaúcho, conhecia palmo a palmo das estradas do Rio Grande, e especialmente aquela que estávamos percorrendo. Dela eu tinha na cabeça todos os detalhes, sabia onde estava cada curva, cada lombada, cada ponte, o estado do acostamento, e o fato de não haver pardal e tudo mais. Sabia, por exemplo, que não havia subidas fortes nem curvas acentuadas e sabia que o leito da rodovia estava naquele dia em perfeitas condições, sem nenhum buraco (coisa rara), e por isso era possível correr sem perigo.
Então num relâmpago, quase sem pensar nas duas possibilidades – parar para sermos assaltados e provavelmente assassinados, porque víramos a cara dos bandidos ou então tentar escapar, arriscando sermos alvejados optei pela fuga, sem tempo de avisar minha mulher.
Como numa transmissão de pensamento, porém minha esposa, apavorada gritou;
- Corre, Irion!
Sem olhar para os bandidos, como se estivesse apensas prestando atenção na estrada, com um simples movimento no câmbio, reduzi da quinta para a terceira marcha e pisei fundo no acelerador. O motor respondeu roncando como um condenado e partindo dos sessenta por hora, o carro deu um pulo para a frente, tão forte que minha mulher foi comprimida contra o banco, e, em segundos, estávamos a 100 por hora, tirando luz do carro dos bandidos, e a possibilidade de nos fechar.
Surpresos eles custaram a reagir. Então pelo retrovisor vi o clarão quando o cara da janela atirou. Pisei mais fundo, e o ponteiro do velocímetro subiu a 100, 115,120. Enquanto isso, a bala começou a se aproximar e eu acelerava em segundos para 130, 140. A danada da bala também acelerava, competindo com o Mustang e disposta a cumprir sua obrigação de assassina que devia ferir um de nós. Num instantinho, chegamos a 160 e depois a 180 enquanto vento assobiava, zunindo no aerofólio traseiro. A bala desgraçada não desistia e acelerava e, mesmo a 220 e continuava a nos perseguir. São estranhos os pensamentos que passam pela cabaça da gente nas horas de aperto. Por incrível que pareça lembrei da definição de instantinho – “o espaço de tempo entre o sinal abrir e o cara do carro de traz buzinar”
Eu grite para minha mulher:
- Pega o celular e telefona pra o 190! Chama a Policia Rodoviária! Chama os brigadianos!
Ela procurou, afobada, o telefone na bolsa. estávamos a 240, passando a 250 e finalmente a 260 e quanto mais acelerava mais a bala se aproximava enquanto a Márcia tentava ligar para o 190.
Logo ali tinha a primeira curva. Pensei: “agora faço a curva e a bala segue reto pela tangente e estou livre”. Fiz a curva e, pasmem, a bala também!
-É da polícia, perguntou.
- Oi vó! Respondeu a Thaysa, reconhecendo a voz da Márcia. Nossa neta ainda não tinha dormido e estava em Iporã do Oeste em Santa Catarina.
Sempre me intrigou como a ligação para a brigada foi atendida em Santa Catarina e, coincidência estranha, logo no telefone da casa de nossa filha. Hoje, depois de muito pensar e graças a meus profundos conhecimentos de física (mereço ou não o Prêmio Nobel de Física?), cheguei à explicação lógica e cientifica, (como eu não pensara antes?), – a mudança entre o numero discado e o que atendeu ocorreu por causa do efeito Doppler-Fiseau.
Você sabe que esse efeito é devido a mudança de frequência das radiações quando uma fonte emissora está em movimento muito rápido. Para os leigos, explico com o exemplo: se um carro buzinando passa por você, na medida que se aproxima e se afasta, muda gradualmente o tom da buzina passando a ser mais agudo na aproximação e mais grave quando se afasta. Nessa altura da história o Mustang estava tão rápido, mas tão rápido mesmo, que nossa extraordinária velocidade alterou a frequência das ondas de rádio de chamada do celular, forçando a mudança do número discado, fazendo uma ligação local se tornar interurbana e interestadual.
Enquanto bala se achegava eu acelerava e a Marica gritava:
- Corre, Irion!
Tive tempo de acha isso muito interessante, mas muito mesmo, porque, em geral, durante as viagens ela costumava dizer o contrário:
- Irion! Não corre!
E o meu pé, (nem me lembrava da gota), estava com força no fundo e o carro corria e a bala vinha. Olhei para o painel e o ponteiro do velocímetro estava no ponto máximo da escala do mostrador e mesmo assim eu acelerava mais e mais, e o Mustang respondia. “Oigale” carro bem bom , parece dos fabricados em Cacequí!”– pensei.
Logo adiante tinha um lançante que me deu esperança de escapar porque na descida a bala passaria por cima. Engano! Pois sim! O carro começou a descer e a bala também! Quase abria a janela para xingar “bala assassina , bala filha da puta, vai-te à merda!”
Apenas pensei e felizmente não abri o vidro da janela porque se o fizesse, a velocidade era tanta, mas tanta, que o ar do carro seria sugado, provocando despressurização do cock pit (afinal estávamos numa corrida e esse é um termo técnico que obrigatoriamente faz parte desta história). Isso seria fatal porque o Mustang não é como os aviões de carreira que têm máscaras de oxigênio para cair do teto quando há despressurização.
Olhei o retrovisor e vi que finalmente o carro e a bala tinha agora a mesma velocidade e ela não mais nos alcançaria. Eu enxergava a bala na noite porque, para minha surpresa, ela estava incandescente, do mesmo modo que um meteorito, com o atrito, fica luminoso quando entra na atmosfera. Eu começara a “tirar luz” da bala.
Então aconteceram os únicos dois fatos inéditos dessa história. O primeiro foi no velocímetro, e vi o ponteiro trancar no fim a escala do mostrador e, com a pressão, aos poucos foi entortando, entortando na medida que o carro acelerava até que, já muito torto, se quebrou num estalo final. Até hoje estou chateado com a quebra do ponteiro porque nunca soube a velocidade final que chegamos, o que me impede de dizê-la com exatidão, (logo eu que sou tão amante das minúcias e principalmente da verdade). E também me aborreci porque tive muito trabalho para conseguir outro ponteiro igual. O segundo fato aconteceu com a bala a qual, de tão quente, quando o chumbo atingiu o ponto de fusão e começou a derreter, formando milhares de grãos que foram pingando, pingando no asfalto até que a bala se esvaiu e tudo acabou.
Ai tirei o pé do acelerador, aliviado por estar livre dos bandidos. Sempre imagino a cara daqueles desgraçados quando começou a corrida e imagino que até hoje estão nos procurando.
Chegamos a Cachoeira fazendo em cerca de pouco mais de dois minutos os trinta quilômetros da estrada. Nossa intenção era denunciar o fato. No primeiro posto de gasolina paramos e perguntamos ao sonolento frentista pela policia, depois de contar o ocorrido. Ele nos indicou a direção e saímos a procura dos brigadianos, mas o frentista entendeu tudo mal e telefonou para a polícia dizendo que alguém fizera um assado pilotando um Mustang. De vereda nos vimos cercados por várias viaturas (termo que os soldados usam para suas conduções), das quais desceram muitos brigadianos de arma em punho, entre eles uma brigadiana porque o frentista dissera que um dos assaltantes era mulher. Depois de muita confusão e explicação, desfeito o equívoco, passado o susto, resolvemos pousar num hotel em Cachoeira.
Já na cama, antes de dormir pensei: “sou caçador de perdiz, estamos na temporada e preciso d chumbo pra minha munição. Será d esperdício deixar todo aquele chumbo na estrada”. Com esse pensamente fiz um plano e dormi.
No dia seguinte, depois do café, convidei a Márcia para irmos ao local onde a bala derretera. Antes passamos num supermercado e compramos uma vassoura.
Quando dirigia, estranhei o pára-brisa dianteiro que parecia embaçado. Chegamos ao local onde a bala se finou e lá estavam, brilhando no asfalto, os grãos de chumbo novinhos em folha. Varremos e juntamos tudo, (penso que nada se perdeu). Foi com esse chumbo que fiz minha primeira caçada no inverno de 1.999 e como sempre, não errei nenhum tiro...
Na euforia, esqueci a vassoura na estrada, foi um dos prejuízos que tive e, infelizmente, também perdi uma das provas da veracidade desse causo.
O resto da viagem para Santa Maria foi tranqüila, mas o vidro do pára-brisa continuava dificultado a visão da estrada. Quando chegamos, encontrei a explicação lógica para o fato: quando inspecionei o vidro verifiquei que o pára-brisa estava côncavo e embolsado para dentro do carro, quase fora da moldura de borracha devido a tão alta pressão do vento que sofrera na corrida.
Repito e juro que a história é verídica. Tudo isso aconteceu; fui muito fiel aos fatos, sem nada de exagero. Minha mulher não me deixa mentir. O Mustang é a prova. A vassoura se perdeu. Os chumbinhos ficaram todos nas perdizes que cacei.